23 de agosto de 2015

Facção arrasta endividados nas ruas e amarra em rio até a morte em Nazaré


Vizinhos do manguezal localizado nos fundos da Rua Katiara, em Nazaré, no Recôncavo, costuma ouvir mais que ruídos noturnos da fauna nativa da área lamacenta.

O local é conhecido como tribunal do júri da facção fundada por Adílson Souza Lima, o Roceirinho, antigo morador da região e que hoje está no presídio federal de Campo Grande (MS). 


O nome da via de paralelepípedos cercada de casas com tijolos à mostra, enladeirada e cercada por morros, batiza o grupo criminoso liderado por ele, que utiliza o mangue como sala de torturas.

Moradores relataram ao CORREIO que, a prática já foi mais frequente, mas mesmo assim não é raro, à noite, ouvirem, vindos do mangue, gritos e gemidos de vítimas da facção sendo espancadas. 

Depois, elas são deixadas amarradas, por dias, com os ferimentos expostos a insetos e caranguejos. “É horrível. A gente sofre com as pessoas pedindo socorro, gritando pela mãe, mas quem vai lá ajudar?”, perguntou uma mulher que mora perto do mangue e, por medo, pede para não ser identificada.

Para a foz do Rio Jaguaripe, entre os bairros Apaga Fogo e Muritiba, são levados devedores e quem desobedece as regras da facção. “Os que devem muito, sequer têm segunda chance. Morte na hora”, disse outro morador. 

Mas não só eles. Comandante da 3ª Companhia Independe de PM de Nazaré, capitão Maurício Costa contou que integrantes da própria Katiara já foram amarrados no mangue como punição. 

O grupo apareceu em um vídeo na internet exibindo armas e provocando rivais. “O chefe deles mandou amarrá-los como castigo. Já encontramos um tronco com corda”, disse.

Os relatos foram feitos um dia após as polícias Civil e Militar realizar uma operação no local, em cumprimento a dez mandados de prisão e apreensão (ver ao lado). 

A reportagem esteve, na última quarta-feira, na rua, no bairro Muritiba. Apesar da grande presença policial, poucas pessoas quiseram falar com a reportagem, mas confirmaram a sequência de horrores no mangue.


O tribunal

Depois de julgadas por uma comissão, formada pelo gerente da boca e comparsas, as vítimas são agredidas e amarradas. No caso de dívida de droga, aguarda-se o pagamento do montante devido pela família. “A intenção deles é fazer com que os parentes quitassem as dívidas.

 Já teve gente que ficou 15 dias amarrada. Muitos morreram e os corpos foram despejados no mangue”, relatou um jovem.


“A outra forma de tortura é amarrar uma corda nas pernas e arrastar as pessoas na rua e, depois, jogar o corpo na casa das famílias”, relatou outro morador, que em seguida, estendeu o braço, apontando para um morro que cerca a rua. “Lá em cima é o ponto de observação deles. 

Dali, ficam de olho na presença da polícia e de quem vem de fora”, indicou.

Segundo uma moradora, o problema do tráfico de drogas é antigo na localidade, mas de dez anos para cá, a situação piorou. “A droga sempre existiu. As pessoas conviviam bem com isso. 

A maioria das famílias vivia do manguezal e eram poucos aqueles que consumiam essa porcaria (droga). Mas, de 10 anos pra cá, os jovens aqui só andam armados”.

Domínio

O começo do domínio de Roceirinho veio, justamente, com a aquisição de armas como fuzis e metralhadoras, há cerca de 10 anos. Entre as práticas relatadas por um PM, para que o traficante ampliasse sua área de atuação, estava o investimento na distribuição das drogas na região. “Ele pagava R$ 150 por semana a um vapor (quem transporta a droga)”, comentou um policial que participou da operação.

Com a conquista de Nazaré, não foi difícil estender os domínios para regiões vizinhas, como Santo Antônio de Jesus, Maragogipe, Salinas da Margarida, Vera Cruz e Santo Amaro. Em Salvador, Roceirinho domina pontos nos bairros de Valéria, Águas Claras e Lobato.


Outro lado

Apesar dos relatos das crueldades da Katiara em Nazaré, o delegado da cidade, Marcos Maia, disse que só há dois registros recentes que ele tem conhecimento. Em 19 de abril, o corpo de João Paulo Sampaio dos Santos, 26, foi encontrado dentro do manguezal, no bairro de Apaga Fogo, vizinho à Rua Katiara.


A vítima estava nua e foi resgatada por policiais, que usaram barcos, e contaram com a ajuda de moradores e pescadores. João Paulo morava no bairro de Castelo Branco, em Salvador, e estava na casa de parentes.

“Ele andava perambulando pela cidade”, disse o delegado. A vítima morreu de traumatismo craniano. “Provavelmente, golpes de madeira, mas não temos autoria”, explicou.

O segundo caso foi há dois anos. “Uma mulher foi espancada e ameaçada de morte após uma desavença com um integrante da quadrilha. Ela registrou queixa e abandonou a Rua Katiara”, disse Maia. “O restante que se atribui ao bando, outras torturas e mortes, acredito que seja especulação, pois estou há um ano na delegacia e não há mais registro disso”.

No entanto, em 24 de novembro de 2014, moradores de Caboto encontraram amarrados os corpos dos irmãos Edvan Santos da Cruz, 25, e José Carlos Santos da Cruz, 27, com marcas de tiro e deformações no rosto.

 À época, a população informou ter visto um grupo armado cercando a casa dos irmãos, gritando “Katiara!”. (Correio)

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